Postagens

Sábado

  quando chegar a aurora os caminhos percorrerão a luz do invisível isso é o que disse a minha voz e a do trovão um piano no pântano fará vicejar um pulso epilético num quarto mudo ( continuo caindo um turbilhão ) entre este momento e o seguinte não se passou instante algum (respira) o sol o arco o fim de tudo : apenas abra os olhos e veja um sussurro de nuvens selva de sílabas silêncio selvagem  voo 

Anotações

 1  Eu não conseguia parar de pensar. Parece que pensar justificava minha vida inteira.  2 Todos os dias chegam. Por mais distante que um dia pareça ele chega sempre. Inexoravelmente.  3 Tudo em excesso faz mal.  4  Há esse sentimento clandestino do mundo, das coisas e dos seres. Essa dissolução irresoluta das horas passando no abismo.  5 Isso seria uma espécie de ponta de fuga. Uma linha perdida rumo ao infinito.  6 Quando o labirinto enlouqueceu quem se deu conta do minotauro?  7  Mais velho do que na primeira linha teimosamente escrevo. Para nada e para ninguém. Talvez, escrevo para mim de outros tempos.  8  A contemplação é a arte da permanência na impermanência de tudo.  9  Ir a si mesmo é árido e difícil ainda que gozo supremo da busca.  10  Quando não pensar em nada pensar em tudo.
 SILENTE A mão detrás da roseira  tangencia o universo feito um favor aos deuses melancólicos ensaiamos uma fala na escuridão das estrelas enigmáticas sonhamos o outro lado do ser um arroubo efêmero e sutil das coisas que dizem antes de serem dita
Diga-me, quer ser minha companheira de jogo?  Quer sempre, sempre brincar?  Que caminhemos juntos pelo precipício, que pareçamos importantes, com nosso coração infantil, que nos sentemos sérios à mesa,  e com sabedoria bebamos vinho e água, que desfrutemos do belo e do insignificante,  e com nostalgia vistamos velhas roupas?  Diga-me, você quer jogar o jogo da vida, no inverno de neve ou no outono interminável, podendo beber o chá, calados, o chá de rubi com seu vapor amarelo? Quer viver de verdade com um coração puro, ficar em silêncio por um longo tempo, ás vezes ter medo... porque na praça se revolve o novembro, porque o varredor de rua é um homem pobre e doente; quem assovia sob nossa janela? Você quer brincar de cobra, de águia, de longas viagens de trem, de navio, no Natal, no sonho de todas as coisas belas? Você quer jogar o jogo do amante feliz? Fingir o pranto, o funeral colorido? Você quer viver, viver para sempre um jogo, que se converta em algo verda...
  "Eles escolheram o caminho mais fácil: divinizar Cristo em vez de entendê-lo." (Guido Ceronetti)

PARA ANNA FLOR

  Kurt Schwitters  T rad. Fabiana Macchi Poema Merz I (c. 1919) Ó tu, amada dos meus vinte e sete sentidos, eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim. — Nós? Isto (aliás) não vem ao caso. Quem és tu, dona inumerável? Tu és — és? — Dizem que serias — deixa que digam, eles nem sabem como a torre da igreja se sustém. O chapéu sobre os pés, caminhas sobre as mãos, com as mãos tu caminhas. Olá, teus vestidos vermelhos, serrados em pregas brancas. Eu amo Anna Flor vermelho, vermelho eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim. — Nós? Isto (aliás) é coisa para a brasa fria. Flor vermelha, vermelha Anna Flor, o que andam dizendo? Responda e ganhe: 1. Anna Flor tem um macaco no sótão. 2. Anna Flor é vermelha. 3. Qual é a cor do macaco? Azul é a cor do teu cabelo amarelo. Vermelho é o chiado do teu macaco verde. Tu, moça simples de vestido de chita, tu, doce bicho verde, eu lhe amo! — Tu teu te a ti, eu a ti, tu a mim, — Nós? Isto (aliás) é coisa para o braseiro. Anna Flor! An...

ÍTACA

Quando , de volta , viajares para Ítaca roga que tua rota seja longa, repleta de peripécias, repleta de conhecimentos. Aos Lestrigões, aos Cíclopes, ao colério Posêidon, não temas: tais prodígios jamais encontrará em teu roteiro, se mantiveres altivo o pensamento e seleta a emoção que tocar teu alento e teu corpo. Nem Lestrigões nem Cíclopes, nem o áspero Posêidon encontrarás, se não os tiveres imbuído em teu espírito, se teu espírito não os sucitar diante de si. Roga que sua rota seja longa, que, mútiplas se sucedam as manhãs de verão. Com que euforia, com que júbilo extremo entrarás, pela primeira vez num porto ignoto! Faze escala nos empórios fenícios para arrematar mercadorias belas; madrepérolas e corais, âmbares e ébanos e voluptosas essências aromáticas, várias, tantas essências, tantos arômatas, quantos puderes achar. Detém-te nas cidades do Egito -nas muitas cidades- para aprenderes coisas e mais coisas com os sapientes zelosos. Todo tempo em teu íntimo Ítaca estará presente. ...